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quinta-feira, fevereiro 19, 2026
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Entrevista da Semana: Kadu destaca avanços, desafios e metas à frente das políticas públicas LGBTQIAPN+ em Laranjeiras

Coordenador municipal detalha ações pioneiras, enfrentamento à LGBTfobia, inclusão social e metas para fortalecer os direitos humanos no município.

Nesta edição da Entrevista da Semana, o RS NOTÍCIA conversa com Ricardo dos Santos Júnior, conhecido como Kadu, Coordenador de Promoção de Políticas Públicas para a População LGBTQIAPN+ de Laranjeiras.

Nascido em Aracaju, em 31 de agosto de 1994, Kadu construiu sua trajetória a partir do engajamento precoce nas pautas de Direitos Humanos. Militante desde a adolescência, transformou vivências pessoais — inclusive um grave episódio de violência homofóbica em 2021 — em combustível para uma atuação pública marcada pelo enfrentamento à LGBTfobia, ao racismo e às desigualdades sociais.

Atualmente, além de coordenar a política municipal voltada à população LGBTQIAPN+, também preside o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa com Deficiência, trazendo para o centro do debate sua vivência como pessoa com deficiência auditiva unilateral. À frente da Coordenadoria, lidera iniciativas inéditas no município e trabalha para consolidar políticas públicas permanentes e estruturadas.

Confira a entrevista completa:


1) RS NOTÍCIA – Kadu, é com imenso prazer para nós do RS NOTÍCIA tê-lo como o Entrevistado da Semana. Muito obrigado por aceitar nosso convite!

KADU – Eu quem agradeço o convite. É uma imensa satisfação poder contar um pouco da minha trajetória e explicar ao povo de Laranjeiras sobre o meu trabalho, nesse espaço de tamanha credibilidade.


2) RS NOTÍCIA – Sua militância começou aos 16 anos. Quais experiências pessoais e sociais foram determinantes para que você assumisse, ainda tão jovem, o compromisso com a defesa dos Direitos Humanos?

KADU – A vida escolar me trouxe uma grande consciência de classe, seja ela social, racial ou sexual. Vivi a ausência do meu pai na infância e adolescência, quando minha mãe criou sozinha seis filhos. No processo acadêmico, pude viver e ver as disparidades sociais, além de sentir na pele situações que me levaram a fazer parte do grêmio estudantil e me aproximar dos movimentos sociais.


3) RS NOTÍCIA – Você foi vítima de um grave episódio de violência homofóbica em 2021. De que forma essa experiência impactou sua visão sobre políticas públicas de proteção e enfrentamento à LGBTfobia?

KADU – A gente nunca imagina que será vítima da barbárie, mesmo fazendo parte de frentes de combate à LGBTfobia, conhecendo os números absurdos e morando no país que mais mata LGBTQIAPN+ no mundo. Nunca passou pela minha cabeça ser a vítima. Quando isso aconteceu, pude vivenciar as falhas do sistema, a revitimização e a falta de preparo de parte da polícia frente a casos de LGBTfobia. Isso me gerou medo e muita insegurança. Mas também tive uma grande rede de apoio que me ajudou a ressignificar essa experiência. Isso me fez olhar com ainda mais cuidado para a pauta e querer fazer da minha voz, da minha presença e dos espaços que ocupo um movimento de luta, conscientização e transformação para uma sociedade mais justa.


4) RS NOTÍCIA – À frente da Coordenação de Promoção de Políticas Públicas para a População LGBTQIAPN+ de Laranjeiras, quais foram os principais desafios institucionais encontrados ao estruturar essa política no município?

KADU – Estar à frente da Coordenação é desafiador, principalmente por estarmos iniciando um trabalho de extrema importância. O primeiro desafio foi diagnosticar as dificuldades da população LGBT+ do município, por meio de uma pesquisa para conhecer melhor a realidade local. Além disso, há dificuldade em manter uma conversa contínua e produtiva com os vereadores da cidade, o que não é uma realidade somente de Laranjeiras. Outro ponto é combater o preconceito institucional enraizado pela formação patriarcal da nossa sociedade, que muitas vezes não é reconhecido por quem o pratica.


5) RS NOTÍCIA – A sua gestão tem sido marcada por iniciativas pioneiras, como o primeiro Encontro de Pessoas Trans e a primeira Conferência Regional dos Direitos da Pessoa LGBTQIAPN+. Qual a importância de institucionalizar esses espaços de participação social?

KADU – Estamos trabalhando para conscientizar uma sociedade que culturalmente tem uma visão engessada sobre sexualidade, uma sociedade que aprendeu a condenar e julgar como errado o que é diferente. Uma sociedade que foi erroneamente induzida a acreditar que algumas doenças estão diretamente ligadas à homossexualidade. Então, institucionalizar esses espaços e fomentar o debate é de extrema importância para que possamos desconstruir estereótipos e buscar as garantias de direitos para a população LGBT+ do nosso município. Eu, Kadu, acredito que dialogar com a comunidade em geral é tão importante quanto dialogar com a população LGBT+, para avançarmos no caminho de uma sociedade mais igualitária.


6) RS NOTÍCIA – A assinatura de um termo de compromisso institucional durante sessão especial na Câmara de Vereadores representou um marco político. Que desdobramentos práticos esse compromisso trouxe até agora?

KADU – De fato, a assinatura desse termo foi um marco político, mesmo com um número pequeno de vereadores presentes. Ela possibilitou um debate com os parlamentares que estavam na sessão. Porém, infelizmente, nenhuma medida concreta foi realizada até o momento. Isso me levará a solicitar uma nova sessão especial, buscando maior adesão dos vereadores e apresentando um projeto de lei voltado à empregabilidade, principalmente para pessoas trans e travestis, com base na pesquisa realizada em 2025, que mostra maior vulnerabilidade social dessa parcela da população.


7) RS NOTÍCIA – Como a Coordenadoria tem atuado no atendimento a pessoas LGBTQIAPN+ em situação de vulnerabilidade social? Há articulação com outras políticas públicas?

KADU – A Coordenadoria LGBT+ está alocada na Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social, porém, fazer políticas públicas para a população LGBTQIAPN+ exige ações transversais. Trabalhamos em conjunto com outras secretarias. Atualmente realizamos assessoria jurídica para retificação de nome e gênero de pessoas trans e travestis. A partir de abril, realizaremos acompanhamento para terapia hormonal, em parceria com o Hospital Universitário de Lagarto, garantindo translado e alimentação das pessoas assistidas. Também temos planejamento de capacitação contínua dos servidores municipais para assegurar acolhimento humanizado. Na educação, buscamos garantir o uso do nome social e promover palestras educativas em escolas, praças, UBS e vias públicas.


8) RS NOTÍCIA – Qual foi o impacto do intercâmbio cultural em Salvador?

KADU – Quando propus esse intercâmbio, foi pensado para além do direito ao lazer e à cultura. Ir a Salvador foi também um resgate histórico e identitário. É a cidade fora da África com maior número de pessoas negras e tem sua história construída com forte arcabouço cultural. Isso se aproxima muito de Laranjeiras. O intercâmbio fortaleceu o pertencimento e valorização das raízes, além de proporcionar uma experiência única para pessoas, em sua maioria, em situação de vulnerabilidade social.


9) RS NOTÍCIA – Como sua vivência enquanto pessoa com deficiência influencia sua atuação?

KADU – Descobri minha deficiência auditiva no início da adolescência e vivi suas limitações, o que me fez refletir sobre o fazer políticas públicas. Penso que as políticas devem ser pensadas e construídas por quem vive a ausência delas. Como presidente do Conselho, buscamos criar um plano eficiente e cobrar efetividade das ações no município.


10) RS NOTÍCIA – Como o trabalho com mães atípicas dialoga com a política intersetorial?

KADU – É um trabalho de soma. A luta já existe. Junto com meu esposo Maycom, psicólogo, buscamos realizar um trabalho humanizado de acolhimento e escuta. Criamos uma rede de apoio e fazemos ponte entre essas mães e os gestores municipais para buscar soluções junto às instituições.


11) RS NOTÍCIA – Quais os riscos e oportunidades para os próximos anos?

KADU – Estamos em um ano de extrema importância eleitoral. O Congresso Nacional nunca aprovou uma lei específica que beneficie diretamente a população LGBTQIAPN+. O avanço de representantes conservadores pode comprometer direitos. Porém, me deixa esperançoso a possibilidade da formação da primeira bancada trans no Congresso Nacional, fortalecendo a luta e ampliando a representatividade.


12) RS NOTÍCIA – Como tornar a educação em direitos humanos uma política permanente?

KADU – Acredito que o conhecimento é ponto-chave para a mudança. Busco estreitar relações com o prefeito Juca e dialogar com o Legislativo para garantir, por meio de leis, a permanência das ações da Coordenadoria no município.


13) RS NOTÍCIA – Quais são as metas prioritárias e o legado que pretende deixar?

KADU – A principal dificuldade identificada é a exclusão de pessoas trans e travestis do mercado de trabalho. Busquei apresentar projeto que garanta cota mínima para empresas prestadoras de serviço à Prefeitura. Enquanto legado, acredito que estamos construindo mudanças permanentes, mesmo nas pequenas ações. Recebo elogios tanto da população LGBT+ quanto de pessoas heterocisnormativas, e isso mostra que estamos abrindo portas.


14) RS NOTÍCIA – Suas considerações finais.

KADU – Agradeço novamente o convite. Convido todas as pessoas a conhecer e participar das ações da Coordenadoria LGBT+. Não é preciso ser LGBTQIAPN+ para combater violências. Agradeço a Laranjeiras por me acolher como filho dessa terra. Estou à disposição para contribuir com o crescimento da cidade e diminuir as desigualdades sociais. Deixo uma frase para reflexão: “A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo lugar.” Martin Luther King Jr. Obrigado!


Encerramento

A entrevista com Kadu reforça que o debate sobre direitos humanos e inclusão social tem ganhado espaço institucional em Laranjeiras. Entre desafios políticos, construção de políticas permanentes e iniciativas pioneiras, a pauta LGBTQIAPN+ avança para além do discurso, buscando consolidar ações estruturadas e de impacto social.

Na próxima edição da Entrevista da Semana, o RS NOTÍCIA seguirá ampliando o diálogo com personagens que influenciam diretamente os rumos do município e da região. Aguarde.

Da Redação do RS NOTÍCIA

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