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OPINIÃO | Eleições 2026: o problema não está nas urnas, mas no possível uso eleitoral da máquina pública

Vitória de Lula deve ser respeitada, mas medidas populares adotadas durante a campanha levantam questionamentos sobre a igualdade de condições na disputa presidencial e os limites do poder político.

O resultado das eleições presidenciais de 2026, que garantiu a reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva diante de Flávio Bolsonaro, continua provocando debates sobre as condições em que a disputa aconteceu.

Na minha avaliação, a discussão mais importante não está em alimentar suspeitas sobre o funcionamento das urnas eletrônicas, mas em examinar até que ponto o uso da estrutura governamental pode ter contribuído para desequilibrar a competição eleitoral.

É preciso separar a legitimidade do voto popular das circunstâncias políticas que envolveram a campanha.

O resultado das urnas deve ser respeitado

Não considero consistente questionar o resultado eleitoral com base em suspeitas de fraude nas urnas sem apresentar provas concretas.

A derrota eleitoral não pode, por si só, servir de fundamento para deslegitimar a vontade popular.

Isso não significa, entretanto, que a eleição esteja acima de críticas. Pelo contrário, uma democracia sólida exige fiscalização permanente das instituições e das condições oferecidas aos candidatos.

O uso da máquina pública merece uma discussão mais profunda

O aspecto que considero mais preocupante é a possível utilização de medidas governamentais de forte apelo popular em momentos estrategicamente favoráveis à candidatura de quem ocupava a Presidência.

Entre os pontos que merecem análise estão eventuais ampliações de benefícios por família, antecipações de pagamentos, medidas relacionadas a dívidas bancárias e iniciativas de gratuidade no transporte.

Essas medidas precisam ser examinadas individualmente, considerando suas datas, fundamentos legais e efeitos eleitorais.

Não se trata de condenar políticas sociais. O problema surge quando uma política pública, legítima em sua finalidade, eventualmente passa a ser utilizada como instrumento de promoção eleitoral.

A escala 6×1 e o protagonismo presidencial

Outro exemplo que merece reflexão é o debate sobre a redução da jornada de trabalho e o fim da escala 6×1.

Trata-se de uma reivindicação importante dos trabalhadores brasileiros, que merece ser discutida independentemente das eleições.

Entretanto, a projeção política conferida ao presidente durante o avanço dessa pauta, em pleno período eleitoral, também suscita questionamentos sobre os efeitos da visibilidade institucional na disputa.

O mérito social de uma medida não impede a análise de seu eventual aproveitamento político-eleitoral.

O momento das decisões também importa

Uma pergunta precisa ser feita: por que determinadas iniciativas de grande repercussão popular recebem tanta visibilidade justamente na reta final de uma eleição?

Não afirmo que toda medida anunciada nesse período seja irregular. Governos continuam obrigados a administrar, inclusive durante campanhas eleitorais.

Mas o calendário, a forma de divulgação e a eventual associação dessas iniciativas à candidatura governista são elementos que merecem fiscalização.

O abuso de poder político ou econômico não pode ser presumido. Precisa ser demonstrado com fatos, provas e enquadramento jurídico adequado.

A decisão de Cristiano Zanin não comprova favorecimento

Também não compartilho da interpretação de que a controvérsia envolvendo a decisão do ministro Cristiano Zanin sobre a prorrogação do horário de votação represente, automaticamente, uma tentativa de favorecer Lula.

Na minha avaliação, a decisão pode ter sido precipitada e juridicamente questionável, sobretudo pelas dificuldades operacionais de alterar procedimentos durante uma eleição em andamento.

Entretanto, uma decisão judicial equivocada não significa necessariamente uma decisão tomada com intenção de beneficiar determinado candidato.

Houve questionamentos relacionados à votação apresentados pelas duas candidaturas. Por isso, considero indispensável analisar o conteúdo dos pedidos e da decisão antes de atribuir qualquer intenção política ao magistrado.

Não vejo fundamento suficiente para transformar esse episódio, isoladamente, em prova de favorecimento eleitoral.

A crítica precisa ser coerente

Não podemos defender a democracia apenas quando vencemos.

Da mesma forma, não podemos considerar que toda crítica às condições de uma eleição represente uma tentativa de desrespeitar o resultado.

Reconhecer a vitória de Lula não significa renunciar ao direito de questionar eventuais vantagens indevidas obtidas durante a campanha.

O caminho correto é a fiscalização, a apresentação de provas e a atuação das instituições competentes.

O verdadeiro desafio da democracia

A eleição não deve ser avaliada apenas pela correta contagem dos votos. Também importa verificar se houve respeito às regras que asseguram igualdade de oportunidades aos concorrentes.

Quem governa possui visibilidade institucional e capacidade de implementar políticas públicas. Isso é natural e não constitui, por si só, ilegalidade.

O que precisa ser combatido é a eventual utilização indevida dessas vantagens para interferir na competição eleitoral.

Minha conclusão

Lula venceu e sua vitória deve ser respeitada. Flávio Bolsonaro e seus apoiadores têm o direito de questionar possíveis irregularidades, desde que apresentem provas.

Mas acredito que a discussão mais relevante está em outro ponto: a necessidade de investigar, quando houver elementos concretos, se a utilização de instrumentos governamentais durante a campanha comprometeu a igualdade da disputa.

Não considero razoável transformar suspeitas sobre as urnas ou uma decisão controversa de um ministro em explicações automáticas para a derrota.

A discussão sobre o eventual abuso de poder político e econômico é mais séria e merece ser conduzida com responsabilidade, sem antecipar condenações.

A democracia não exige apenas votos corretamente contados. Exige também uma disputa conduzida dentro de limites legais, institucionais e éticos.

É essa reflexão que considero fundamental depois das eleições de 2026.

Reginaldo Santos
PÁGINA OPINIÃO | RS NOTÍCIA

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