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Opinião | Canetas emagrecedoras no SUS: anúncio perto da eleição exige cobrança, mas benefício merece apoio
Governo promete ampliar acesso ao tratamento da obesidade, mas ainda não apresenta calendário nacional; proximidade das urnas levanta questionamentos sem diminuir a importância da proposta.
Por Reginaldo Santos — Opinião | RS NOTÍCIA
A intenção do governo federal de oferecer gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) as chamadas canetas emagrecedoras merece ser recebida com interesse e responsabilidade. Se o tratamento beneficiar pacientes que realmente precisam e não conseguem pagar, sua ampliação será bem-vinda. Isso, porém, não impede o questionamento sobre o momento escolhido para reforçar a promessa: a poucos dias da eleição presidencial.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, defenderam a oferta dos medicamentos durante agenda em Montes Claros, em 17 de setembro. A manifestação ocorreu 17 dias antes do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. Não foi apresentado um prazo para início da distribuição nacional. UOL
A população pode apoiar a proposta e, ao mesmo tempo, cobrar explicações sobre seu anúncio na reta final da campanha. Uma posição não exclui a outra.
O que existe hoje — e o que ainda é promessa
O Ministério da Saúde informou que a futura oferta dependerá de estudos e da definição de um protocolo clínico. A proposta anunciada não é distribuir medicamentos indiscriminadamente nem oferecer uma solução para emagrecimento estético.
No Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, o estudo Real-Bari prevê acompanhar 250 pacientes com obesidade grave ou associada a outras doenças, utilizando semaglutida sob supervisão especializada.
Padilha relatou que o primeiro participante perdeu seis quilos e apresentou mudanças nos hábitos de vida. É um resultado individual preliminar, não uma conclusão sobre todo o estudo nem garantia de resposta semelhante para outros pacientes. Ministério da Saúde
Portanto, é necessário evitar uma interpretação equivocada: o anúncio não significa que as canetas já estejam disponíveis para retirada em qualquer posto de saúde do Brasil.
Por que anunciar com tanta força justamente agora?
A proximidade das urnas torna legítima a pergunta: por que a promessa de ampliar o acesso ganha tamanho destaque neste momento?
O potencial de repercussão política é evidente. Trata-se de um tratamento conhecido, procurado por muitas pessoas e cujo acesso depende, frequentemente, da capacidade de pagamento. Apresentar sua futura oferta gratuita durante a campanha pode produzir expectativa e favorecer a imagem do governo.
Isso não comprova, por si só, uma motivação exclusivamente eleitoreira. Sem evidências adicionais, não é correto transformar uma avaliação política em afirmação factual sobre a intenção do presidente.
Também é importante reconhecer que o projeto não surgiu apenas em setembro. O estudo-piloto já havia sido anunciado em junho de 2026. Assim, a crítica mais consistente não é dizer que toda a iniciativa foi improvisada às vésperas da eleição, mas questionar por que a promessa nacional é reforçada agora sem um calendário concreto de execução. UOL, Folha de S.Paulo
A resposta precisa vir acompanhada de planejamento, transparência e compromisso que ultrapasse o período eleitoral.
Mesmo que exista interesse eleitoral, a população não deve perder
A posição desta coluna é clara: tudo que beneficie efetivamente a população deve ser bem-vindo, independentemente de qual governo execute a medida.
Mesmo que exista cálculo eleitoral na divulgação, isso não torna indesejável uma política pública capaz de ampliar o acesso a um tratamento necessário. Quem enfrenta uma doença não deve ser privado de assistência por causa da disputa entre partidos.
Mas apoiar o benefício não significa aceitar qualquer promessa, dispensar avaliação técnica ou relativizar eventuais irregularidades. A medida precisa ser segura, legal, financeiramente sustentável e orientada pela necessidade dos pacientes.
O apoio é à assistência, não ao uso da saúde como instrumento de campanha.
O acesso pelo SUS também não deve ser apresentado como favor pessoal do presidente ou como dívida de gratidão do cidadão. Saúde pública é direito, não moeda de troca eleitoral. Ninguém deve precisar demonstrar apoio político para receber atendimento.
O governo precisa transformar o anúncio em entrega
Para que a promessa tenha credibilidade, o Ministério da Saúde deve esclarecer quais medicamentos pretende oferecer, quais pacientes poderão receber, como ocorrerá o acompanhamento e quando o tratamento chegará aos estados e municípios.
Também é necessário explicar o financiamento e garantir continuidade. Não basta anunciar uma inovação se, depois, faltarem consultas, profissionais, medicamentos ou condições para acompanhar os pacientes.
O melhor sinal de compromisso será a execução da política depois da eleição, qualquer que seja o resultado das urnas.
A população merece saber se está diante de um programa com etapas verificáveis ou apenas de uma expectativa lançada durante a campanha.
Como buscar atendimento neste momento?
Quem precisa de tratamento para obesidade pode procurar a Unidade Básica de Saúde de referência e solicitar avaliação. A equipe poderá orientar o acompanhamento e os encaminhamentos conforme a rede disponível.
Não há, no comunicado consultado, cadastro nacional aberto nem procedimento de retirada imediata das canetas. Uma receita também não deve ser confundida com garantia de fornecimento gratuito. A disponibilidade precisa ser confirmada com a Secretaria de Saúde e a assistência farmacêutica local.
O medicamento não deve ser utilizado por conta própria. A escolha do tratamento depende de avaliação individual e acompanhamento profissional.
Apoiar o benefício e fiscalizar a promessa
É possível manter duas posições simultaneamente: questionar o momento político do anúncio e apoiar uma oferta responsável de tratamento para quem necessita.
A população não ganha com a rejeição automática de uma proposta apenas porque ela pode render votos ao governante. Também não ganha com o entusiasmo diante de uma promessa sem prazo.
Por isso, a cobrança deve ser firme: que o governo transforme o discurso em atendimento, publique critérios transparentes e mantenha o compromisso depois da campanha.
Se as canetas chegarem com segurança a quem precisa, será um avanço que merece apoio. Se ficarem apenas no palanque, será uma promessa que merece cobrança.
A eleição passa. A necessidade de assistência permanece.
Da Redação do RS NOTÍCIA


