InícioGeralCaso Master se espalha pelo Judiciário: novas mensagens citam Gilmar, Nunes Marques,...
Caso Master se espalha pelo Judiciário: novas mensagens citam Gilmar, Nunes Marques, Gonet e ministro do STJ
Relatórios extraídos do celular de Daniel Vorcaro revelam encontros, contratos, pagamentos e eventos de luxo envolvendo autoridades e seus familiares; citados negam irregularidades, enquanto defesa do ex-banqueiro tenta obter sua liberdade no STF.
As novas informações divulgadas na noite desta sexta-feira (18) ampliaram o alcance da crise envolvendo o Banco Master e colocaram outras autoridades do sistema de Justiça sob pressão. Mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro passaram a alimentar questionamentos sobre contatos do ex-banqueiro com ministros do Supremo Tribunal Federal, integrantes do Superior Tribunal de Justiça e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
As revelações não significam, por si só, que todos os personagens citados tenham cometido crimes. Entretanto, o conjunto de encontros, contratos milionários, pagamentos a familiares, viagens e eventos de luxo reforça a necessidade de uma investigação independente, capaz de separar relações institucionais e profissionais de possíveis situações de favorecimento.
Vorcaro procurou Gilmar Mendes em causa bilionária
Um dos novos episódios envolve o ministro Gilmar Mendes. Segundo mensagens obtidas pela investigação, Vorcaro esteve no gabinete de Gilmar, no STF, e teria pedido apoio em uma disputa judicial de valor bilionário.
O encontro teria sido intermediado pelo empresário Francisco “Chiquinho” Feitosa, que era cunhado do ministro na época. Paralelamente, uma empresa relacionada a Vorcaro teria contratado Feitosa mediante um pagamento inicial de R$ 800 mil, além de uma remuneração mensal de aproximadamente R$ 500 mil.
A contratação ocorreu enquanto Gilmar Mendes relatava processos sobre a abertura de novos cursos de medicina, setor no qual Vorcaro possuía interesses empresariais.
Gilmar confirmou que recebeu o banqueiro, mas negou qualquer irregularidade. O ministro afirmou que não tratou de assuntos do Ministério da Educação com os envolvidos e ressaltou que, em julgamento posterior, votou contra uma tese de interesse de Vorcaro.
Até o momento, não foi apresentada prova de que Gilmar tenha recebido dinheiro ou decidido em troca de vantagem. As informações comprovam a tentativa de aproximação do banqueiro, mas eventual influência ilegal ainda precisaria ser demonstrada por meio de investigação. (Folha de S.Paulo)
Mensagens citam mansão de luxo para ministro identificado como “KN”
Outro episódio de grande repercussão envolve um ministro identificado nas mensagens pela sigla “KN”. Investigadores consideram que a referência pode ser ao ministro Kassio Nunes Marques, atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral.
As conversas indicam que Vorcaro teria autorizado a locação de uma mansão no Joá, no Rio de Janeiro, para o Carnaval de 2025. Avaliado em aproximadamente R$ 250 milhões, o imóvel teria sido alugado por cerca de R$ 1,45 milhão durante uma semana.
O planejamento descrito nas mensagens incluía segurança, transporte de helicóptero, bebidas sofisticadas, camarotes na Marquês de Sapucaí, pulseiras de acesso privilegiado e uma feijoada para aproximadamente 40 convidados.
O gabinete de Nunes Marques negou que o ministro tenha recebido hospedagem de Vorcaro ou mantido contato com o ex-banqueiro. Por isso, apesar da coincidência entre as iniciais, a identificação de “KN” como sendo Kassio Nunes Marques ainda necessita de comprovação formal. (UOL)
Pagamentos a empresa que remunerou filho de Nunes Marques
A situação de Nunes Marques também ganhou um novo capítulo com informações sobre repasses efetuados pelo Banco Master à Consult Inteligência Tributária.
Relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras apontou que a empresa teria recebido aproximadamente R$ 6,63 milhões do Banco Master, em 14 depósitos realizados entre agosto de 2024 e julho de 2025. A Consult, por sua vez, transferiu R$ 281,6 mil ao advogado Kevin Marques, filho do ministro.
Nas mensagens, Luiz Rennó, então diretor jurídico do Master, mencionou pagamentos de “R$ 500 mil por mês” e enviou a Vorcaro uma planilha com o contato de Kevin. Depois de uma decisão favorável à Destilaria Alcídia, Rennó informou o resultado do julgamento, encaminhou novamente o contato do advogado e escreveu: “dominado aqui”.
A decisão interessava a uma carteira de precatórios do setor sucroalcooleiro que, segundo a investigação, poderia superar R$ 10 bilhões. Nunes Marques participou do julgamento e votou com a corrente vencedora.
Kevin Marques afirma que recebeu os R$ 281,6 mil por serviços tributários prestados à Consult, que nunca trabalhou para o Banco Master e que o serviço não teve relação com o STF. O ministro também declarou que nunca votou em favor do banco e sustenta ter atuado com absoluta isenção.
A coincidência entre os pagamentos e a tramitação do processo provoca questionamentos, mas ainda não comprova que o dinheiro tenha sido utilizado para comprar uma decisão judicial. (UOL)
Nunes Marques deixou julgamento sobre Moraes e Vorcaro
Antes das revelações mais recentes, Nunes Marques já havia decidido não participar do julgamento que discutia uma possível investigação das conversas entre Vorcaro e Alexandre de Moraes.
O ministro afirmou que nunca trocou mensagens com o banqueiro e lembrou que votou pela manutenção das prisões de Vorcaro, do pai dele e de outros investigados. Também declarou que o afastamento não significava reconhecimento de culpa.
Entretanto, as referências ao seu filho e à suposta hospedagem destinada a “KN” aumentam a pressão para que todos os fatos sejam esclarecidos com o mesmo rigor aplicado aos demais ministros citados no caso.
Paulo Gonet aparece em evento com Vorcaro em Londres
A atualização mais recente da noite atingiu o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Conversas e registros recuperados pela PF mostram que Gonet participou, em abril de 2024, de um evento no George Club, em Londres, no qual também estava Daniel Vorcaro.
Segundo a reportagem, o procurador-geral foi fotografado em uma noite de uísque e charutos com o banqueiro e outras autoridades. As mensagens teriam sido intermediadas pelo advogado Ciro Soares.
A assessoria da Procuradoria-Geral da República confirmou a presença de Gonet, mas afirmou que o encontro foi breve, público e sem qualquer tratamento de assunto institucional. Também destacou que, naquele momento, não havia investigação conhecida contra Vorcaro.
Até agora, não foi apontado ato ilegal praticado por Gonet naquele encontro. Entretanto, como cabe à PGR analisar procedimentos que podem envolver autoridades com foro, a proximidade social aumenta as cobranças por transparência e prevenção de possíveis conflitos de interesse.
O Conselho Superior do Ministério Público Federal abriu uma apuração sobre as referências ao procurador-geral. Internamente, Gonet também criou um grupo de trabalho para acompanhar os processos relacionados ao Banco Master. (Folha de S.Paulo)
Ministro do STJ disse estar “sempre à disposição”
As mensagens também alcançaram o Superior Tribunal de Justiça. Diálogos atribuídos ao ministro Benedito Gonçalves, que atualmente ocupa a Corregedoria Nacional de Justiça, mostram a marcação de encontros com Vorcaro.
Em uma das conversas, o ministro teria dito estar “sempre à disposição” do banqueiro. Benedito também aparece relacionado a eventos frequentados ou financiados por Vorcaro, inclusive a programação realizada em Londres.
Assim como nos outros episódios, a participação em encontros não demonstra automaticamente a prática de crime. O conteúdo, porém, revela a facilidade com que o empresário circulava entre autoridades responsáveis por decisões sensíveis do Poder Judiciário. (Folha de S.Paulo)
OAB-RJ defende filho de Luiz Fux
A Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro divulgou uma carta de apoio ao advogado Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, depois que conversas entre ele e Vorcaro também foram reveladas.
A entidade afirmou ter analisado as mensagens e não encontrado comportamento incompatível com o exercício da advocacia. Segundo a OAB-RJ, Rodrigo possui trajetória profissional própria e atuação reconhecida há mais de duas décadas.
A manifestação reforça um ponto jurídico importante: o exercício da advocacia por parentes de ministros não constitui ilegalidade automaticamente. A apuração deve verificar se houve uso indevido da relação familiar, promessa de influência ou interferência em processos. (OAB-RJ)
Defesa de Vorcaro tenta obter liberdade
Enquanto as revelações aumentam a crise no Judiciário, a defesa de Daniel Vorcaro pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, a revogação da prisão preventiva do ex-banqueiro.
Os advogados argumentam que a prisão não teria sido reavaliada dentro do prazo de 90 dias previsto pelo Código de Processo Penal. Também sustentam que a indefinição sobre a relatoria e a condução do caso não pode justificar a manutenção da detenção.
Como alternativa, a defesa propõe medidas cautelares, incluindo tornozeleira eletrônica e proibição de deixar o país. Vorcaro foi preso novamente em março, depois que a PF encontrou mensagens indicando um suposto planejamento de ataques contra adversários, entre eles o jornalista Lauro Jardim.
O pedido ainda depende de decisão do Supremo. (UOL)
Caso Master exige investigação equilibrada
As novas mensagens revelam que Daniel Vorcaro construiu uma ampla rede de circulação entre ministros, procuradores, magistrados, advogados, empresários e familiares de autoridades.
É necessário evitar condenações antecipadas, pois ser citado numa conversa, participar de um evento ou manter encontro institucional não configura crime automaticamente. Da mesma forma, as instituições não podem utilizar esse princípio como justificativa para impedir investigações ou proteger determinadas autoridades.
O esclarecimento do Caso Master depende da análise integral das mensagens, da identificação dos pagamentos, da comprovação dos serviços prestados e da comparação dessas movimentações com processos e decisões de interesse do banco.
Se as suspeitas contra um ministro justificam apuração, elementos semelhantes envolvendo outras autoridades também precisam receber tratamento equivalente. A credibilidade do STF, do Ministério Público e do próprio sistema de Justiça dependerá da transparência, da imparcialidade e da disposição para investigar todos os lados.
Da Redação do RS NOTÍCIA


