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Opinião | Alexandre de Moraes vira peso eleitoral e crise no STF ameaça a reeleição de Lula

Desgaste da Suprema Corte fortalece o discurso da oposição, coloca o governo na defensiva e pode ajudar Flávio Bolsonaro em uma disputa presidencial cada vez mais equilibrada.

Por Reginaldo Santos

Se as eleições presidenciais fossem realizadas no próximo domingo, 13 de setembro, a crise instalada no Supremo Tribunal Federal representaria uma séria ameaça à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Pesquisas divulgadas nos últimos dias apresentam resultados diferentes, mas convergem em um ponto: a disputa presidencial está acirrada e qualquer novo desgaste político ou institucional pode alterar o comportamento do eleitorado.

O PoderData/Aya, por exemplo, mostrou Flávio Bolsonaro com 47% das intenções de voto no segundo turno, contra 45% de Lula. O resultado representa empate técnico, considerando a margem de erro, mas coloca o senador numericamente à frente pelo segundo levantamento consecutivo.

Na rodada anterior, Flávio tinha 45%, enquanto Lula registrava 44%. Agora, o candidato do PL avançou para 47% e ampliou de um para dois pontos sua dianteira numérica.

A crise do STF entrou na campanha

É justamente nesse cenário de equilíbrio que o agravamento da crise no STF passa a preocupar o governo. O embate envolvendo Alexandre de Moraes, André Mendonça, a Polícia Federal e as investigações relacionadas ao Banco Master deixou de ser apenas uma disputa interna do Judiciário.

O caso atravessou as paredes do Supremo e entrou definitivamente na campanha eleitoral.

Reportagens apontam que ministros da Corte temem que os próximos capítulos da crise, inclusive sessões transmitidas ao vivo, sejam transformados em munição eleitoral nas redes sociais. A campanha de Lula também procura evitar que a eleição se torne uma espécie de plebiscito sobre o STF.

Esse receio é compreensível. Uma parcela significativa dos eleitores associa Lula ao campo político que, durante os últimos anos, defendeu com maior intensidade as decisões tomadas por Alexandre de Moraes.

Mesmo sem existir uma vinculação institucional entre o presidente da República e as decisões individuais de um ministro do Supremo, a percepção política construída no imaginário do eleitor pode produzir consequências nas urnas.

E, em uma eleição decidida voto a voto, percepção também pesa.

A ironia política que ameaça Lula

Existe uma profunda ironia nesse cenário: Alexandre de Moraes, tantas vezes apontado como uma barreira contra o avanço do bolsonarismo, pode terminar contribuindo para fortalecer eleitoralmente justamente um candidato da família Bolsonaro.

Quando decisões judiciais passam a ser interpretadas por parte da população como excessivas, seletivas ou politicamente orientadas, o resultado costuma ser o fortalecimento do discurso de quem se apresenta como vítima do sistema.

Flávio Bolsonaro tenta ocupar exatamente esse espaço. Sua campanha procura transformar a crise institucional em argumento político, relacionando o desgaste do STF à necessidade de mudança no comando do país.

Assim, quanto maior for a exposição negativa de Moraes, maior poderá ser o espaço para Flávio mobilizar o eleitorado conservador, conquistar indecisos e recuperar eleitores que estavam afastados do bolsonarismo.

O que deveria funcionar como obstáculo à família Bolsonaro pode acabar produzindo o efeito contrário.

Aliança atribuída a Moraes exige comprovação

O comentário que motivou esta análise sustenta que Alexandre de Moraes teria articulado uma aliança com os presidentes da Câmara e do Senado para favorecer a reeleição de Lula.

Trata-se de uma acusação política grave, que não deve ser apresentada como fato consumado sem provas públicas e conclusivas. O que pode ser afirmado é que decisões e movimentos atribuídos ao ministro alimentaram, ao longo do tempo, a percepção de proximidade entre setores do Supremo, do Congresso e grupos interessados em impedir o retorno do bolsonarismo ao poder.

Na política, entretanto, a percepção nem sempre espera uma decisão judicial definitiva. Quando uma narrativa se consolida entre milhões de eleitores, ela passa a produzir efeitos concretos.

A pergunta central, portanto, não é apenas se Moraes pretendia ou não beneficiar Lula. A questão eleitoral mais importante é outra: o eleitor acredita que existe uma ligação política entre o ministro, o governo e o sistema que combate o bolsonarismo?

Se a resposta de uma parcela decisiva da população for positiva, Lula terá um problema difícil de administrar.

Lula tenta se afastar do desgaste

Em declaração recente, Lula afirmou que, se Alexandre de Moraes ou André Mendonça tiverem cometido irregularidades, deverão responder conforme a lei. O presidente também elogiou a atuação de Edson Fachin na tentativa de reorganizar o ambiente interno do Supremo e defendeu maior transparência.

A manifestação revela uma mudança importante de postura. Lula procura evitar que a crise seja colocada exclusivamente em seu colo e tenta construir uma distância política segura em relação aos ministros envolvidos.

Essa estratégia, entretanto, enfrenta limitações. Durante anos, setores do PT e da esquerda transformaram determinadas decisões do Supremo em símbolos da defesa da democracia. Agora, com a Corte submetida a uma crise de credibilidade, torna-se difícil convencer o eleitor de que o desgaste pertence apenas ao Judiciário.

O presidente não controla o STF, mas poderá pagar parte da conta política de uma crise que não foi criada formalmente pelo Palácio do Planalto.

A sobrevivência política de Moraes pode ser um problema para Lula

Quanto mais Alexandre de Moraes permanecer no centro do noticiário negativo, maior será a pressão sobre o governo para se posicionar. Se Lula defender o ministro, poderá assumir parte de seu desgaste. Se romper publicamente, poderá desagradar setores que sustentaram a narrativa de defesa incondicional da Corte.

É uma situação delicada, na qual qualquer movimento produz consequências.

Nesse sentido, a sobrevivência política de Moraes pode ter se transformado em um problema eleitoral para Lula. Não necessariamente porque exista uma aliança formal entre os dois, mas porque seus adversários conseguiram associar suas imagens dentro de uma mesma narrativa política.

Flávio Bolsonaro entra nessa disputa com uma vantagem estratégica: pode criticar o Supremo, apresentar-se como representante da oposição ao sistema e atribuir ao governo todo o desgaste institucional, mesmo quando os fatos são mais complexos.

O risco de um julgamento político nas urnas

O STF precisa responder aos questionamentos com transparência, respeito ao devido processo legal e disposição para investigar qualquer possível irregularidade, independentemente de quem esteja envolvido.

A Corte não pode atuar pensando nas conveniências eleitorais de Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato. Contudo, também não pode ignorar que a confiança pública é uma das bases de sua autoridade institucional.

Se os esclarecimentos não forem convincentes, o julgamento político poderá acontecer nas urnas antes mesmo da conclusão dos processos.

Por isso, a crise do STF deixou de ser um problema exclusivo dos ministros. Ela já afeta o Congresso, a Polícia Federal, o governo e a própria eleição presidencial.

A grande ironia é que o ministro apontado durante anos como adversário do bolsonarismo pode terminar servindo como um dos principais combustíveis para o crescimento eleitoral de Flávio Bolsonaro.

Se essa tendência persistir, Lula poderá descobrir, tarde demais, que o maior peso de sua campanha não estava necessariamente entre seus adversários formais, mas em uma crise institucional que seu campo político demorou a reconhecer.

Este texto expressa a opinião do autor. O espaço permanece aberto ao contraditório e à manifestação das pessoas e instituições mencionadas.

PUBLIDADE DE SETEMBRO DE 2026

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