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OPINIÃO | Correios: governo busca capital privado e precisa explicar mudança de discurso

Contrato prevê preparação para possível abertura de capital; diante dos prejuízos, gestão Lula deve explicações sobre eficiência, responsabilidade e participação privada.

A discussão sobre o futuro dos Correios exige uma cobrança de coerência ao governo federal. Depois de combater a privatização e defender a manutenção da empresa pública, a gestão Lula agora trabalha com alternativas que incluem a entrada de investidores privados e uma possível oferta de ações na Bolsa.

Segundo reportagem publicada pelo Correio em 23 de outubro, com base em documento obtido por O Globo, os Correios contrataram o escritório Pinheiro Neto por R$ 7,097 milhões. Entre os serviços previstos estão estudos e preparação jurídica para uma eventual transformação da estatal em sociedade de economia mista e abertura de capital.

Ainda não está demonstrada uma decisão de vender o controle da empresa. Mas a contratação revela que a participação privada está sendo considerada de maneira concreta, com assessoria jurídica para examinar e preparar esse caminho.

O discurso precisa acompanhar as decisões

A pergunta é direta: se o capital privado pode contribuir para recuperar os Correios, por que sua participação foi tantas vezes tratada no debate político como uma ameaça?

Buscar investidores não é, por si só, um erro. Pode representar uma alternativa legítima para financiar investimentos e reorganizar uma empresa. O problema está em condenar uma solução quando ela é defendida por adversários e apresentá-la como modernização quando passa a integrar as próprias alternativas de governo.

Mudar de posição diante dos resultados pode ser necessário. O que se exige é transparência para reconhecer a mudança e explicar suas razões.

A crise cobra responsabilidade da gestão

Na avaliação desta coluna, recorrer ao capital privado diante de sucessivos prejuízos evidencia os limites das respostas oferecidas pela atual administração. Isso permite cobrar sua capacidade de gestão, embora não prove que toda empresa pública seja incapaz de funcionar bem.

O TCU apontou fragilidades nas premissas e no acompanhamento do plano de reestruturação dos Correios, além de incertezas sobre a suficiência dos recursos para recuperar a sustentabilidade da companhia. O tribunal também registrou prejuízo de aproximadamente R$ 8,5 bilhões em 2025.

Não basta anunciar empréstimos, parcerias e reorganizações. É preciso demonstrar como essas medidas vão melhorar as entregas, recuperar receitas e reduzir a necessidade de novos socorros financeiros.

A comparação com o governo anterior exige precisão

Houve resultados positivos durante o governo Bolsonaro. O relatório integrado dos Correios registra lucro líquido de aproximadamente R$ 2,28 bilhões em 2021. Entretanto, a série apresentada em 2024 também registra prejuízo de aproximadamente R$ 768 milhões em 2022, último ano daquela administração.

Portanto, é correto lembrar os lucros daquele período. Também é necessário reconhecer que o resultado negativo começou antes da atual gestão. Essa precisão fortalece a crítica: cobrar responsabilidade não exige omitir números desfavoráveis a qualquer governo.

O cidadão quer serviço de qualidade

Para quem depende dos Correios, o essencial é receber um serviço confiável, com prazo, preço adequado e atendimento acessível. A preferência ideológica de um governante não pode valer mais que a qualidade da entrega.

Defendemos uma empresa financeiramente sustentável, capaz de investir e atender a população, inclusive onde a operação é menos rentável. Se a participação privada ajudar a alcançar esses objetivos, deve ser discutida com clareza, metas e prestação de contas.

O novo mandato presidencial nem começou, mas essa discussão já estava em andamento antes do encerramento da eleição. A contratação foi noticiada em 23 de outubro; portanto, seria impreciso apresentá-la como uma iniciativa surgida somente depois da votação.

A cobrança permanece: o governo precisa explicar por que considera agora instrumentos associados à agenda liberal que seus aliados tanto criticaram. Trocar o nome da proposta não dispensa o dever de explicar seu conteúdo.

Por Reginaldo Santos | Opinião — RS NOTÍCIA

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